Indecente

Indecente

Te ofende a palavra que irrompe da minha boca? Te ameaça o tesão dito ou sentido? Te esquenta o calor do abraço que distribuo? Te roubam o ar os meus suspiros? Você acredita que controlar os outros te salva daquilo que seu moralismo não confessa?

Você recusa a imagem de um beijo de língua desavergonhado. Eu acho desavergonhado usar a língua para defender a tortura.

Você chama de imposto do pecado mais um tributo sobre álcool e cigarro. Pecado é roubar a dignidade de dependentes químicos em internações compulsórias.

Você diz que tratar sobre os impulsos do desejo nas escolas perverte as crianças. Mas a perversão está na desonestidade, objetiva e intelectual, que vocês impõem à educação.

Relação pornográfica é a de religião com milícia.

Você teme a perdição prazerosa? Eu temo que se percam as informações confiáveis.

Te aflige a chegada do Carnaval? Me aflige o esquecimento do Holocausto.

Meninas de mãos dadas te constrangem? Me constrange um presidente de mãos dadas ao representante da fábrica de armas em comitiva oficial.

Te surpreendem as fantasias sexuais? Pois me surpreende a atriz de novela, heroína no imaginário do povo, ser protagonista do ataque à cultura.

Você pretende que os jovens parem de transar? Em pretendo que os adultos parem de desmatar.

Te choca a luta suada dos corpos? Choca a mim que os corpos pretos e índios não sejam tratados como os colos que nutriram nossa história.

Meu inferno libidinal não é mais quente que o seu. Meu fogo arde, mas só queima a convite. O seu lastreia e pretende pôr em cinzas tudo o que você não suporta.

Intolerável pra você não é apenas o sexo. Você não tolera é a liberdade.

A experiência sexual vivida por escolha é conquista de autonomia.

O sufocamento dela é ataque à identidade. Esse, sim, é o ato mais indecente.

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