Lógica

Lógica

Há exatos 50 anos o homem pisou o solo da Lua pela primeira vez. Uma demonstração da capacidade pensante do ser humano. Meio século depois desse marco do avanço intelectual, nos encontramos, no Brasil, às voltas com ideias medievais.

O presidente decidiu, agora, avançar sobre o cinema, que deixa de ser assunto da área da cultura e passa a se submeter ao Ministério da Casa Civil. Além disso, reduziu a participação da sociedade no conselho que regula o setor.

O que está em risco é conteúdo das produções audiovisuais. Faz pouco tempo que um comercial do Banco do Brasil foi retirado do ar pelo governo porque exaltava a diversidade racial e sexual.

O sexual é o pretexto para a intromissão oficial no terreno das liberdades alheias. Defesa das “famílias”. Um suposto cumprimento das promessas feitas ao eleitorado conservador e evangélico.

Pois bem, vamos voltar no tempo. Foi no século XVI e se chamou Reforma. A Igreja Católica, mergulhada em luxo e luxúria, vendia lugares no Céu, enquanto impunha dogmas de pureza. Então, Martin Lutero iniciou os movimentos de questionamento, defendendo o poder do indivíduo de interpretar por si mesmo as escrituras, sem a interferência dos incoerentes mediadores de Deus. Surgiram, assim, as religiões protestantes, inspiradas na defesa do raciocínio e da responsabilização pessoal.

O fato de essas mesmas religiões terem se tornado intransigentes e autoritárias demonstra como a autonomia de consciência é assunto do qual não podemos descuidar.

Agora, no Brasil, elas estão sendo usadas para justificar os atos de pessoas que – como os maus líderes da Idade Média – não representam nada de divino, mas apenas a si mesmos.

O cerceamento ao cinema não tem a ver com a moral e bons costumes. É uma tentativa de calar o pensamento, assim como os recentes ataques feitos às universidades, ao ensino de filosofia e sociologia e até à Ordem dos Advogados do Brasil.

Esses governantes, que misturam culto com armas, usam os argumentos da religião como escudo. Justamente das religiões que defendem a separação entre a vida religiosa e a mundana.

Sinto-me escrevendo obviedades. Porém, parece que afirmá-las tornou-se necessário hoje.

Pois então digo que, se temos inteligência para fazer viagens espaciais, também podemos tutelar o território da nossa intimidade. E somos capazes, inclusive, de escolher o que veremos nos cinemas.

Não é possível voltar atrás nos passos de lógica e discernimento, que a humanidade levou séculos para conquistar. 

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