Nós duas

Nós duas

Então, aqui estamos nós, nessa conversa que já dura mais de trinta anos, assuntando cada fase da vida. Agora, tentamos nos adaptar aos óculos, que a gente não sabe bem quando coloca e quando tira. As vistas ficaram cansadas. E nós não aprendemos ainda a lidar com as lentes e nem com o cansaço.

Mas, já é hora de aceitar. Vamos tentando convencer uma à outra de que não precisamos fazer mais e mais, movidas pela nossa onipotência. Tudo bem se você não fizer aquele curso neste ano. Tudo bem se eu não publicar um livro. Tudo bem que discordem de como tratamos nossos pais ou de como lidamos com nossos filhos. Tudo bem que algo dê errado com a mudança, com o consultório, com a gravação, com a palestra, com o conselho, com o corpo ou com as relações.

Precisamos conquistar, enfim, a absolvição da consciência. Perder a necessidade do desafio. Descansar um pouco sobre a história que construímos com tanto empenho. E sem passar as noites sonhando com provas de matemática e tarefas relegadas.

Como naquele tempo, em que a gente matava aula no colégio, temos desejo de liberdade. Naquela época, era liberdade para fazer. Hoje, precisamos de liberdade para não fazer.

Agora, conversamos também sobre planilhas de gastos, previdência privada, doenças, INSS e seguro. Além de nos ocupar da vida, temos que nos ocupar da morte. A gente não pensava nela quando andava de bicicleta no meio trânsito, levando a outra na garupa, não é?

Horas de prosa com espumante geladinho não vão amenizar o sufoco se a gente não frear a imensa necessidade de produzir, de acertar. Vamos ter que admitir que nem tudo que pode ser feito precisa ser feito. Pelo menos, não imediatamente, não ao mesmo tempo.

Como vamos atingir a meta de nos tornarmos velhas doidas e felizes se não soltarmos as rédeas, se não nos colocarmos confortáveis com os limites, se continuarmos reféns da exigência?

Amanheci, depois do nosso encontro, com a urgência dessas mudanças e te mandei uma mensagem: temos que mudar isso, mudar tudo, mudar rápido! Já me preparando para outra grande batalha, dessa vez contra mim mesma.

E você, que já vai pegando o ritmo da maturidade respondeu: vamos aos poucos… e devagar.

Ufa!

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