O cão

O cão

Eu o escuto em dias de domingo. As ruas estão vazias e o uivo fere o silêncio. Um choro de bicho grande, capaz de acordar as dores de toda a vizinhança.

Imagino o som daquele lamento comprido adensando a solidão imposta aos velhos, aos rudes, aos rejeitados, aos tímidos. Quantas vítimas do luto, das rupturas, das violências tampariam os ouvidos se pudessem, para não lidar com o desterro que o cão denuncia.

Decido procurar por ele. Está numa clínica. É o vigia do lugar, por onde ninguém passa nos fins de semana. Forte, de raça conhecida para proteger. Mas duvido que seja capaz. Nem se mexe. Não rosna, não late, não faz festa, não fareja. Um cachorro melancólico.

No portão há uma placa que demonstra que a tristeza do cão já preocupou outras pessoas. O aviso diz que o animal tem um canil coberto do lado de dentro da casa, com água e comida, e que a ração oferecida a ele é de uma marca tal, famosa e cara.

Lembro o livro “O tempo e o cão”, de Maria Rita Kehl. Nele, a psicanalista explica como a depressão pode ser uma resposta a esta época, em que a felicidade é obrigatória.

Época em que importa mais a grife da ração do que o comportamento. Em que estamos alimentados de receitas gourmet e famintos de autenticidade. Em que estamos atentos às necessidades materiais e completamente indiferentes à fome de contato. Tempos em que se crê que a saciedade vem de algo à venda.

Chamo pela grade: vem cá! Ele apático. Impotente, vlto para os meus próprios cachorros, pensando nessas duas palavras que não se pode passar sem.

É preciso pronunciar: vem cá! Mesmo que seja para um animal de estimação.

É preciso escutar: vem cá! Seja qual for o tom.

O que não é possível suportar é a falta completa de um interlocutor. Sem esse convite à proximidade, adoecem bicho e gente.

Se não há ninguém para escutar o uivo, de que adianta a ração? De que serve o banquete da euforia, quando perdemos o apetite?

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