O pau

O pau

Nas praias baianas, cocada, quebra-queixo e cuscuz perderam a vez. Também já não são tantos os vendedores que oferecem castanha de caju, ostra e camarão. O sucesso do comércio ambulante nesta estação é outro: o pau de selfie. Já não é novidade tecnológica, mas, agora, custa mais barato que um picolé, em várias cores e material vagabundo, vindo direto da China. E, já que são férias, por que não se dar ao desfrute? Em cada mesa tem um. No mesmo grupo de amigos, há vários. O jogo de frescobol na beira do mar é invadido pela criatura que anda de ré com o bastão na mão, armando e desarmando sorrisos mecanicamente enquanto aperta o botão para acionar a câmera.

Desconfio que várias fotos seriam bem parecidas se fossem tiradas com o celular na mão mesmo, mas como perder a chance de recorrer a esse objeto fálico de ostentação e poder? É como se ele anunciasse: esta pessoa tem uma imagem que vale muito e merece ser registrada.

Também haveria a opção de se pedir a alguém para fazer a foto, como antigamente. Só que a interação com o outro, seu olhar e julgamento, ativaria a noção do limite e ninguém está querendo saber de impor freios ao próprio ego.

Vivemos tempos de celebração desmesurada do eu e essa tendência aparece em invenções bizarras e cômicas. Vi um anúncio de uma cachaça que contém flocos de ouro comestível. Quem se acha tão importante que escolhe pagar uma fortuna para degustar uma bebida à altura da sua preciosidade? Ou será o oposto? Tentativa de adquirir, por meio de um produto, o reconhecimento de valor que, na verdade, falta a si mesmo?

As redes sociais pedem pelo narcisismo e eu, que lido com elas, sinto vergonha quando percebo que meu exibicionismo está maior do que a vontade de compartilhar ideias. Me contenho se caio na armadilha de me importar mais com o que aparento do que com o que faço. Isso acontece porque, para mim, a vaidade não é um sentimento nobre. Mas parece que essa ideia está caindo em desuso.

Me lembrei do filme “Advogado do diabo”, em que Al Pacino, como maravilhoso demônio, diz: “A vaidade é meu pecado favorito”. Pois satanás pode se transferir do inferno para as nossas areias escaldantes no verão. E se deliciar, de óculos escuros numa espreguiçadeira, com o banquete oferecido pela vanglória digital.

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