Par

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Moinhos de vento me atraem. É natural que me sentisse seduzida também pelo cavaleiro de espada em punho.

Eu acredito em Deus. Como duvidaria de um anjinho que atira flechas?

Sempre gostei de uma bela história. Claro que me entregaria ao romance.

Mas, o amor romântico não é uma fantasia inofensiva.

Acreditar que alguém possui a chave das minhas emoções, me afasta de procurar pelos meus segredos.

Pensar que o outro completa minhas faltas, me poupa do trabalho de lidar com os buracos negros da alma.

A sensação de que a simples presença de uma pessoa me engrandece e pode despertar o mais intenso de mim mesma é uma deliciosa vertigem, mas não dura. Manter esse contato com minha profundidade é algo a que vou ter que me dedicar por conta própria.

A gente espera que alguém nos traga aquilo de que a personalidade carece. Se precisamos de determinação e objetividade, sonhamos com a chegada do corajoso salvador. Se não temos bondade com nossos sentimentos, desejamos alguém como uma donzela sublime capaz de tocar nossos afetos. Atribuímos aos outros poderes sobrenaturais e depois os culpamos por serem humanos.

Demorei a entender que os trovadores e poetas estão construindo castelos, nos quais raramente permanecem. Se o amor dá sentido à vida, porque nós, os românticos, nunca estamos satisfeitos?

Quanto mais fantasiosa a história, mais dramático o fim. Por isso, agora tento escrever linhas de deseroização.

Com isso, os relacionamentos vão ficar pobres? Sem graça? Acho que não. Os encontros têm um potencial de riqueza, que vai além de promessas douradas.

O outro não é a resposta. O outro é quem desperta em mim as perguntas que evito.

Juntos não vamos alcançar o céu. Vamos, sim, mergulhar mais fundo no enigma.

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