Passarinha

Passarinha

O Baobá era a árvore mais robusta da floresta. A Passarinha era o bicho mais lépido.

Quando ela ia longe, procurava por ele acima das outras copas e podia encontrar o caminho de volta. Trazia de outros cantos um ar de aventura, que o Baobá inspirava satisfeito.

Gostavam daquela troca, mas a natureza dela era o movimento e a dele, a estabilidade. Era natural que se desentendessem.

Um dia a Passarinha perguntou provocando:

– Baobá, você não se cansa de viver sempre no mesmo lugar e do mesmo jeito?

– Não, prefiro assim. Aprendi que a melhor forma de me defender é fincar minhas raízes bem fundo no chão. E você? Não acha cansativo não ter pouso? Retrucou bruto.

– Não. Para mim voar é a melhor forma de escapar do perigo.

O pensamento dos dois desenhou imagens de riscos diferentes e, ameaçados, esqueceram o confronto.

– Passarinha, do que você tem medo?

– Tenho medo de ser capturada e ferida, disse se encolhendo.

– Já eu… tenho medo de raios e tempestades.

Fizeram silêncio, unidos por aquela confissão. Ambos aprisionados.

– O que faria você mudar, Baobá?

O Baobá procurou, mas não encontrou nenhuma possibilidade entre as suas certezas sólidas.

– Não tem jeito, Passarinha. Somos assim. Você acha que existe alguma coisa que possa te fazer permanecer?

A Passarinha suspirou, quase conformada. Mas se lembrou de umas palavras de livro, que o vento soprava por aí.

Despediu-se do Baobá com um aceno de cabeça e levantou voo, respondendo apenas para si mesma:

“O golpe da graça, que se chama paixão”.

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