Proteção

Proteção

Descobri, num desses programas estrangeiros de TV a cabo, que existe um grupo de pessoas viciadas em protetor labial. Não apenas usuárias. Dependentes. Precisam ter sempre um bastãozinho à mão ou se sentem desconfortáveis e até ansiosas. Uma das vítimas do hábito descrevia como o intervalo de tempo entre uma aplicação e outra foi diminuindo progressivamente. E um médico alertava sobre o risco dos lábios se tornarem excessivamente finos com o uso de tanto produto.

Me lembrei dessa excentricidade ao pensar sobre um comportamento emocional bem comum: pessoas que se cercam de cuidados demais e, por isso mesmo, se tornam perigosamente frágeis. 

Elas são ligadas e capazes de antever riscos. Ponderam e controlam. Apostam tudo na defesa que a inteligência lhes assegura e criam rituais racionais para acreditar que nunca estarão expostas. Mas, como disse Guimarães Rosa, a vida esquenta e esfria e, quando menos esperamos, as intempéries racham nossa segurança.

O impulso dos super precavidos, no meio da ventania, é redobrar os cuidados e vão aumentando as exigências e as tarefas até ficarem exaustos. Normalmente é nesse ponto que chegam à terapia. Chegam a contragosto, porque terapia é sinônimo de realidade subjetiva e, portanto, matéria rebelde demais para quem se esforça para disciplinar a vida.

Aí a gente conversa, vai descobrindo as causas do desamparo no passado, encontrando capacidades para lidar com o imprevisto no presente, vai acolhendo a possibilidade de erro e a incerteza da existência e… é aí que tudo piora.

O sistema de alarme dispara por dentro. Como um dependente em abstinência, o viciado em controle é tomado pelo pavor. Aparecem pesadelos e sustos que nem existiam antes. Abandonar os antigos métodos de proteção parece insuportável.

Então, é preciso persistir mais um pouco, aguentar os lábios secos, se conformar com o incômodo e renunciar, aos poucos, à vigilância.

Quem já enfrentou o processo conta que, depois, passou a sobrar mais tempo na rotina.

Mas, na verdade, o que sobra é energia. Empenho que era desperdiçado em camadas e mais camadas de proteção ilusória.

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