Razão

Razão

Nesta semana, uma paciente minha se queixou dos comentários que escuta no trabalho. Insinuações de que as conquistas profissionais dela são fruto da sua aparência, e não do seu empenho ou conhecimento. Cometo a inconfidência de escrever sobre o assunto tratado em consultório, porque o fato é tão recorrente que chega a parecer banal.

Mas não é banal que nós mulheres ainda sejamos divididas em dois grupos: a mulher do desejo e a mulher da razão. Se é atraente, é diminuída pelos homens que não a podem ter e pelas mulheres que não a podem ser. Se é pensante, então não se cuida (e não se depila).

A quem convém esse discurso? Certamente a qualquer um que queira nos obrigar à renúncia de algum desses lados. Uma face dessa imposição, perversa e dissimulada, está infiltrada nas relações amorosas.

Coloca-se, na caixinha das mulheres quentes, as emotivas e arrebatadas. E, sob o rótulo de frias, as intelectualizadas e mandonas. Pra completar, vem a arenga de que nós nascemos para cuidar e nos dedicar ao outro. Receita para evitar questionamentos.

Pense depressa no estereótipo de um homem apaixonado. Talvez um cara com um buquê de flores, cartas de amor e a cabeça no lugar. Agora pense na imagem clichê de uma mulher apaixonada. Uma insana, capaz de desvarios, como morrer de fome, fazer escândalos e rastejar.

Se é afetiva, é destituída de ponderação. Se é capaz de entrega sexual, não está no controle das próprias emoções. Se é dedicada, é também condescendente. A paixão pode ofuscar no início, mas a gente recupera o foco. Aí, quando decidimos nos posicionar no relacionamento, vão dizer que não estamos abertas o suficiente. Os homens vão alegar que foram enganados: mas você parecia tão feliz! Certo. Feliz sim, ilógica não.

Diálogo não é intolerância. Negociação sobre as nossas necessidades não é exigência descabida. Amor incondicional só o de mãe. E olhe lá, porque muitas mães que conheço cobram um preço bem alto pelo afeto que oferecem.

Queridas, não caiam nessa de que mulher com sentimentos é mulher sem raciocínio e poder de escolha. Dá pra se perder no amor, sem perder o rumo da vida.

E, queridos, escutem: Estou aqui, de corpo e alma. Mas trouxe o cérebro também, tá?

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