Resistência

Resistência

Entrei em casa e recebi a notícia dramática dos três filhos ao mesmo tempo: estamos sem internet! Revirei os olhos de desalento. Suspirei. Depois juntei a rapa de paciência e determinação que me sobraram do dia e fui enfrentar o desafio chamado telefonema para a operadora. Foram quarenta minutos de gravações e espera. Uma eternidade de obstáculos, que teria sido absoluta perda de tempo se não me tivesse feito pensar sobre uma situação típica do processo de terapia.

Quando tentamos levar uma pessoa até os seus próprios sentimentos, ela resiste – mesmo que tenha procurado atendimento com esse objetivo. Todos nós temos memórias e desejos que preferimos desconhecer. Portanto, driblar as respostas prontas para chegar às emoções verdadeiras pode ser tão complicado quanto vencer o atendimento eletrônico do telemarketing para encontrar uma alma viva do outro lado da linha. O analista tecla opções, tentando abrir portas. O paciente responde fechando caminhos, fazendo rotas de fuga, repetindo círculos. Mais ou menos assim:

Analista: Me conte sobre essa dor. Deve ter sido difícil…
Disque 1 – se concordamos que essa dor não é tão relevante assim.
Disque 2 – se você possui prova material da dor.
Disque 3 – para apresentar teorias sobre os benefícios de falar.

Analista: Posso explicar sobre os benefícios de falar, porém vale mais sua vontade de se ver livre da angústia.
Disque 1 – para esclarecer o que é ser livre.
Disque 2 – se conhece alguém que não tenha angústia alguma.
Disque 3 – para contar sobre suas angústias de terapeuta.

Analista: Talvez você possa dar uma nova olhada para isso agora, com olhos de adulto.
Disque 1 – se você pensa que eu sou covarde.
Disque 2 – caso esteja querendo dizer que minha infância foi uma mentira.
Disque 3 – para deixar o passado e voltar a falar do que interessa, que é o fim do meu relacionamento.

Analista: A nossa forma de amar vem das primeiras relações que tivemos.
Disque 1 – para enaltecer papai e mamãe.
Disque 2 – para explicar qual era a dificuldade desse Freud com os pais dele.
Disque 3 – se está sugerindo que eu desejei comer minha mãe.

Analista: Nem tudo é assim tão consciente. É natural que a gente esqueça partes difíceis da vida.
Disque 1 – para provar onde está esse tal inconsciente, que não aparece nos exames.
Disque 2 – para admitir que o meu caso não é como o das outras pessoas.
Disque 3 – para ouvir de novo as explicações que eu já te dei.

Analista: Eu iria preferir escutar o que você ainda não disse.
Disque 1 – para me sugerir o que você espera que eu lembre.
Disque 2 – se você está pensando que sou o seu pior paciente.
disque 3 – se o nosso tempo acabou.

Esse labirinto explica, em parte, o silêncio do analista. Muitas vezes, é preciso não discar nenhum número. Recusar as velhas alternativas oferecidas pelo paciente e deixar espaço para que ele procure por novas opções. Um processo que pode ser demorado e doloroso, mas que merece ser feito.

Por quê? Porque o psiquismo é como a internet da nossa casa. Se ficamos sem acesso a ele, vamos nos poupar de conteúdos ruins, mas também vamos renunciar a boas navegações. Ninguém consegue desligar o fio da dor e manter um sinal de qualidade para os outros sentimentos. É um combo. Por isso, dar uma olhadinha no inconsciente é restabelecer a conexão com a plenitude da vida.

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