Restaurante

Restaurante

O cheiro de comida convida para entrar. Mas não a todos.
O vigia dirige a mim um sorriso e a você uma ameaça.

Tenho um crachá no pescoço. Pertenço a um grupo cada vez mais restrito.
Você tem pés descalços. É um risco.

A fila de pessoas lhe dirige gestos de recusa
Palavras vazias: hoje, não. Sempre um não.

Se eu enfrentar seus olhos, poderei manter o passo da rotina?
Seu eu te ignorar, a indiferença não congela meu sangue?

Posso te dirigir um sorriso e te negar dinheiro?
Posso te dar dinheiro e te negar minha indignação?

Quem sabe te ofereço alguma palavra de simpatia?
Como não te conceder ao menos o direito ao ódio?

– Volte para casa. Você não devia estar na escola?
– Volte para o conforto. Você não devia estar no ar condicionado?

Vou servir minha salada colorida e cobrir de azeite.
Se eu perder a fome por você, isso enche sua barriga?

Posso te trazer uma quentinha ou posso te negar o mínimo.
Afinal, o buraco do mundo é grande demais para mim.

Se eu te der as moedas do meu troco,
Eu te ajudo ou te estapeio?

Não se deve incentivar a degradação.
E, por acaso, esse argumento pode evitar a degradação da minha alma?

O que é mais feio? A palavra esmola ou sua puberdade faminta?
O que pode ser mais agressivo do que o desprezo?

As boas ações que faço longe de você te consolam?
Meus discursos vão te proteger quando a noite cair?

Será que uma trabalhadora não pode ir a um self-service
Sem sentir que é um ser humano inútil?

Será que vai ser preciso escolher todos os dias
Entre desviar-se de um pedido na calçada e viver em culpa?

De que vale escolher palavras de poesia
Se há tantas vidas sem escolha?

Para alguma coisa tem de valer.
É preciso pensar no que há de ser.

Há de ser um tempo em a impotência não me fará atravessar a rua.
Em que meu apetite não ofenderá sua fome.

Há de ser um tempo em que eu não precisarei fingir que esqueço
Que você é tão como eu.

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