Roxo e amarelo

Roxo e amarelo

Já não era nova, mas podia ser confundida com uma moça pela graça de andar esperançada. Ainda não era uma dona, mas algo velha pelo engenho de não se abalar de susto facilmente.

Tinha uma saia de flores roxas e amarelas que vestia logo cedo.

Saiu ao caminho naquele dia e foi atirada ao chão por um homem grande e forte com olhar suplicante de criança. No encalço dele, um grupo gritava: Louco! Louco! Pega! Ela se pôs adiante na correria, meteu a mão à saia. Arrancou flores amarelas e despejou pelo caminho uma rota de fuga.

Já na aldeia, entrou suavemente na casa em luto. O menino chorava junto do corpo da mãe morta pelo amante. Colheu uma flor roxa do tecido e lhe colocou na mão. O jovem órfão espremeu as pétalas com força, feroz com o deus que permitia aquele desatino. Ela segurou a mão sufocante entre as suas e abraçou aquele ódio também.

No sobrado, uma idosa alquebrada com a sua dor. Sempre àquela porta. Nem do sol se protegia, como a denunciar que qualquer desconforto ainda era muito pequeno diante do seu abismo. A mulher se aproximou mansa e tentou colocar uns brotos de pano no cabelo dela. A anciã, que parecia frágil, tomada de força, lhe susteve a mão no ar e disse: leve suas mentiras daqui, você me ofende ao enfiar cor nos meus espinhos!  

Vencida, a mulher voltou para sua casa de paredes cobertas de hera.

Tirou a saia colorida. Experimentou o pavor da perseguição, a faca da injustiça e a queimadura pelo desprezo da velha.

Só e descoberta da inocência, sentiu todo o frio da vida.

Na madrugada, cansou de chorar. Puxou para si uma manta estampada de lavandas lilases e tentou conciliar o sono.

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