Sanguínea

Sanguínea

Um amigo querido, dos tempos de colégio, me mandou uma foto de uma laranja do tipo sanguínea. Eu não conhecia a espécie, que é comum nos países da Europa mediterrânea.

Eu havia escrito sobre os diversos significados da palavra que deu nome ao blog: sanguínea é um tipo de personalidade emotiva e aberta, é uma técnica de desenho feito em cor de sangue e é uma corrente que nutre e troca. Todos os sentidos me levavam à ideia de apreender, expressar e compartilhar os sentimentos. Até que me chegou a fruta e eu fiquei imaginando o que ela podia ter a ver com isso tudo.

Pensei então que a laranja sanguínea, que mistura cores e um sabor doce com um quê de azedo leve, oferece uma metáfora das nossas emoções, tantas vezes tingidas pelo seu oposto. Uma versão cítrica de yin-yang para ilustrar as contradições que moram em tudo, inclusive, em cada ser humano e em cada relação.

Que sabor insuportável há em reconhecer o amor manchado pelo ódio. Provar da raiva de quem mais gostamos, da idealização frustrada, da falta onde só se espera encontro. Como é ácido o gosto das incoerências infiltradas na nossa história, das decepções que também impomos aos outros. Desejamos a vida em amarelo solar, contínuo, permanente. Mas surgem sempre as sombras escuras da imperfeição.

Meu amigo disse que a laranja sanguínea mancha as mãos de quem a descasca com um suco vermelho, o que pode ser surpreendente quando acontece pela primeira vez.

Para experimentar da vida podemos ter as mãos sujas de sangue também, as escolhas pintadas pelos erros, frutos nem belos, nem puros. A sabedoria, que os taoístas ensinam há milhares de anos e nos custa incorporar, é aceitar que, dessa mesma árvore de contrários, crescem as raízes da experiência e só dela podemos colher algumas sementes de compreensão.

Comentários
Fechar Menu
WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com