Sobrenome

Sobrenome

Filhos queridos,

Sei que, na época da alfabetização, vocês eram os últimos a terminar de copiar a ficha. Sei que o espaço nos formulários nunca é suficiente. Mas, me deixe explicar melhor o que penso sobre esse nome comprido que vocês têm, com quatro palavras depois do prenome.

Não me parece razoável que só o lado masculino seja contemplado nas certidões de nascimento, como se não fossem as mulheres as responsáveis pela maior parte do cuidado com a família. Dessa forma, manter nos documentos a lembrança das avós de vocês é apenas um devido reconhecimento.

Não imaginem que essa escolha tenha a ver com a fila de nomes da linhagem monárquica, que faz questão de ressaltar sua estirpe. Aliás, nem pensem no brasão dourado da família “Toledo” da Espanha. Uma pessoa que pesquisou o assunto nos contou que quatro irmãos pobretões, que vieram da Europa para o Brasil, passaram a ser identificados por esse sobrenome, não por serem nobres, mas por causa da sua cidade de origem.

Pois lembrem-se, ao contrário, do que contava meu avô materno sobre minha tataravó. Índia de uma tribo Puri, na zona da mata mineira, ela teria sido “pega no laço”. Foi levada à força para se casar com um homem branco. E meu avô carregava orgulhoso a foto dela no bolso para provar nossa ascendência de pele vermelha, sinônimo de força e bravura, suprimindo a vergonhosa parte de dor dessa história.

Portanto, não pretendo ensinar a vocês fidelidade ao sangue ou à tradição, nem passar nenhum pedigree. Somos mesmo vira-latas. Comuns, resistentes, cheios de energia, afetivos e invocados. Mais barulhentos do que violentos.

Os nomes, resolvam como quiserem. Por mim, podem omitir, abreviar, escolher o que soa melhor.  Espero apenas que escrevam suas assinaturas pessoais na vida. E torço para que na identidade de vocês – a da alma, e não a do papel – esteja a marca do bem, de gente mais comprometida com a justiça do que afeita à pompa.

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