Sol

Sol

Meu pai se submeteu a uma cirurgia de catarata e recebeu do médico a recomendação de, daí por diante, evitar olhar para piscinas, mar e todos os espelhos de água onde o sol reflete. Já pensou? Nada de descansar a vista no horizonte de uma beira de praia? Nada de deixar a imagem de uma cachoeira correr pelas retinas? Será que vale a pena se defender dos danos que a beleza pode causar?

Quando eu era criança, deitava com o rosto virado para o sol e fechava os olhos, deixando a luz passar pelas pálpebras e formar manchas coloridas. Aquilo me dava alegria, ainda dá e, por isso, não uso óculos escuros.

Também não costumo usar filtro solar. Gosto de sentir na pele os dias quentes, atravesso para o lado ensolarado da rua e me sento na mesa rejeitada do restaurante onde o sol bate.

Que imprudente! me dirão. E o aquecimento global? E o câncer de pele? Na minha família, há tantos casos de câncer, que minha vida viraria uma lista de restrições se eu pensasse em todos eles:

Contra o câncer de garganta, nada de álcool e seria recomendável evitar até o chocolate quente ou os chazinhos fumegantes.

Para evitar os tumores intestinais, dieta sem defumados, enlatados, embutidos, corantes, conservantes e gordura animal.

Pílula anticoncepcional também estaria proibida para proteger as mamas.

E o celular, hein? Melhor regular o uso, nunca se sabe, para não repetir a tragédia do câncer de cérebro.

Por que me privar de alguns prazeres e confortos se estou exposta a excesso de trabalho, de cobranças e a níveis altíssimos de sentimentos perniciosos que as pessoas emitem por aí?

Não costumo me defender do que aquece ou até queima, por fora ou por dentro. Tem um preço: decepções ao longo da vida e, provavelmente, muitas rugas ao fim dela.

Mas me sinto mais protegida evitando o frio, usando meias gordas para dormir e mantendo a distância de quem não cultiva vínculos.

Adoro um verbo que não existe no dicionário: lagartixar. E, sempre que posso, o pratico, entregue ao que vem do céu ou das pessoas, como no poema de Álvares de Azevedo:

“A lagartixa ao sol ardente vive

E fazendo verão o corpo espicha

O clarão de teus olhos me dá vida,

Tu és o sol e eu sou a lagartixa.”

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