Sonhos

Sonhos

Tenho um sonho repetido em que estou nadando em uma piscina com muito pouca água. Me esforço, mexo braços e pernas, mas não saio do lugar.

Freud explicou que todos os sonhos são realizações de desejos, ainda que se apresentem distorcidos. Mas como me debater como uma baleia encalhada pode ser a concretização de uma vontade?

É que nós, neuróticos, curtimos o desprazer. Nosso desejo sempre arrasta junto uma censura, que vocifera pra gente: Você não pode nadar de braçada na vida!

Essa voz dita sonhos que são exatamente o oposto do que queremos. Tenho outros recorrentes que envolvem malas. Malas que nunca estão prontas a tempo, malas sem roupas de frio para ir a lugares congelantes, malas inadequadas.

Essas fantasias revelam um gostinho pela dor, que nada tem a ver com algemas e velas derretendo. A tortura é psicológica e se baseia nas ideias de que não sou capaz, não estou preparada, não faço o suficiente. E para dar razão a essas cobranças também na vida acordada escolho as circunstâncias certas para nunca estar em dia com as obrigações. Três filhos, dois cachorros, dois gatos, duas profissões e um milhão de compromissos.

Como me atormento para atender a esse juiz interno que nunca está satisfeito! Guerra vã. Uma parte de mim desiste, mas outra parte, que não descansa nem durante o sono, insiste.

Talvez eu não possa calar esse jogo de cabo de guerra, mas tento enfraquecer o lado mais exigente. Contra ele uso os argumentos do prazer e imagens de liberdade.

Penso em abrir os olhos embaixo d´água e ver os azulejos passando suavemente no fundo da piscina. Imagino o mundo em silêncio, só o som da respiração e eu deslizando sobre as minhas impossibilidades, livre de todo tipo de bagagem masoquista.

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