Tango

Tango

Tocava em uma fita k-7, num gravadorzinho do meu pai, aquela música que entrava na minha alma de criança e ia passando as unhas por dentro, numa sensação misturada de dor e prazer. Eu não entendia bem as palavras, mas adivinhava que se tratava de amor. Prendia a respiração no ritmo sincopado e podia sentir a vertigem de rodopios. Só bem mais tarde soube que as garras sedutoras partiam de um instrumento chamado bandoneon e a voz, que se tornou familiar para mim, era de Carlos Gardel.

Portanto, foi um reencontro quando, aos 19 anos, comecei os ensaios de um número de tango para disputar uma competição de dança. Junto com os passos, aprendi também sobre a história.

A colonização argentina foi feita, em parte, por imigrantes europeus em busca de trabalho. Eram homens e mulheres sem patrimônio ou opção. Aventureiros e putas. Nos bordéis do subúrbio de Buenos Aires, eles formavam os casais que criaram as coreografias para esse novo estilo musical.

Longe das restrições morais da época, os corpos colavam. E as mulheres, que eram poucas e, por isso, poderosas, assumiam uma posição completamente nova na dança. Elas não se deixavam conduzir passivamente. Enfrentavam os homens de igual para igual, sustentando o olhar desafiador, num vai e vem de passos decididos.

Me adaptei rápido aos movimentos firmes e à expressão séria. Os cotovelos não descansavam nos ombros do parceiro, eram sustentados no ar. Uma postura de independência, equilibrada em salto agulha. Eu completava o figurino de vestido longo de fenda substituindo o coque tradicional por um corte de cabelo muito curto. Aderindo ao padrão masculino, criava meu feminismo imaturo e de guerrilha, tentando provar que podia ser livre.

De certa forma, sem me dar conta, minha identificação com o estilo portenho acontecia porque eu tinha os homens como adversários também nos relacionamentos e essa sedução autoritária era encenada de forma complexa no tango. Um romance dramático. Uma disputa em que um invade o espaço do outro e tenta o domínio com ganchos de pernas, que podem machucar se não estiverem perfeitamente ensaiados.

Nosso número ganhou prêmio e foi meu último desafio antes de desistir de viver para dançar. Era hora de mudar o compasso e fazer escolhas menos passionais. Com o tempo, consegui ir desistindo também dos jogos de poder e dos movimentos que ferem. E hoje, apesar do encanto que a beleza agressiva do tango provoca, prefiro as parcerias que permitem entrega e sorrisos compartilhados.

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