Temor

Temor

Sala de pequenas cirurgias. Estava escrito na placa que eu olhava fixamente, tentando me controlar. Você é uma mulher ou um saco de batatas?

Reparo as outras pessoas esperando. Ao lado de cada uma com pulseirinha de paciente, uma sem pulseirinha. É isso! Se eu tivesse acompanhante, estaria mais calma.

Estaria nada. E a médica disse que nem precisava. Também não precisava fazer jejum. Almocei bem. Mas sinto uma fraqueza de esfaimado. Pernas bambas, unhas roxas.

Mas o que é isso? Se aprume! Você já passou por três partos. Mas eles aconteceram do lado de lá de um pano e eu não vi corte aberto. Além disso, tirar um filho da barriga é contingência que não se discute. Já tirar algumas pintas é necessidade imprecisa demais. Ainda dá tempo de duvidar desse negócio de prevenção ao câncer de pele e descer as escadas. Discretamente, como se me desse conta que esqueci as janelas abertas em casa e já começa a chover. Com licença, preciso ir.

A médica me distraiu dos planos de fuga, passando com uma maleta. Meu deus do céu, não posso nem pensar no barulhinho dos instrumentos lá dentro! Lembro o dia que, ainda criança, escorreguei feito geleia da cadeira da farmácia num desmaio, só por causa de uma injeção.

Gostaria de ser um exemplar humano melhor. Já tentei doar sangue. Meu tipo sanguíneo é o mais raro, tão necessário nos hospitais. Mas nem a vez em que meu pai precisou de transfusão foi diferente. Já na antessala, a pressão abaixa. Começo a ficar branca, com aquela sensação gelada na testa e um vazio nos pensamentos. Doadora recusada por motivo torpe: medo infundado.

Com trinta anos decidi deixar de frescura. Fui fazer uma tatuagem. Liguei para o tatuador e perguntei se havia alguma coisa que eu poderia tomar para ajudar. E ele disse: sim, tomar coragem. Foi uma vergonha. Depois de poucos minutos, eu, de mãos e dentes apertados, já tinha dúvida sobre o que seria pior: prosseguir com a maquininha ou deixar o pequeno desenho inacabado.

Os pacientes passam com um acesso espetado na veia. Nao é possível, que demora agoniante! Sempre tive boa saúde. Nenhum trauma hospitalar. Nenhuma justificativa para sentimentos tão desproporcionais.

Ela me chamou. Caminhei, tentando não assassinar minha honra.

Sobrevivi. Sem nenhuma glória. Nenhuma superação. Apenas uma certeza bem freudiana: existem coisas em nós que escapam da razão e da consciência.

Pronto, pele costurada. As emoções param de jorrar pela buraco aberto pela simples imagem de um bisturi ou agulha.

Caminho em direção à saída parecendo quase tranquila. As pintas retiradas vão para análise no laboratório. Já as reações insanas, essas ainda resistem à biópsia.

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