Tenho e não tenho

Tenho e não tenho

Nao tenho um namorado,
mas tenho um amor.
Já tive compromissos mais formais
de onde o afeto se ausentou.

Não tenho a convivência diária,
mas tenho o horário nobre.
Antes, já dividi todas as horas,
sem nenhum privilégio.

Tenho exclusividade
e não tenho dúvidas.
Porém, tenho inseguranças
e não tenho promessas.

Temos divergências
e longos debates.
Não temos concordância,
mas temos presença.

Na vida, já tive intensidade,
sem sossego.
Já tive ternura,
sem paixão.

Me sobraram planos,
me faltou parceria.
Tive fome de atenção
e indigestão com o ciúme.

Tive homens meninos
e não tive medo (mesmo quando deveria).
Tive alguns arrependimentos
e não tenho como esquecê-los.

Tenho esperança,
mas não tenho urgência.
Tenho poucas exigências,
além do laço de mil fios.

Minha amiga procura um par,
mas tem medo de descobrir uma canoa furada.
Disse a ela que todos as canoas são,
inclusive nós.

Temos a estrutura permeável
e fissuras no casco.
Temos carência
e não temos poder de saciedade.

Há dias que os buracos são rombos.
A água sobe depressa
e sinto que estou muito perto
de me atirar à correnteza.

Outras vezes, tampo a infiltração com um dos pés
e navego satisfeita.
Será que o segredo do amor
não é administrar o buraco?

Quando penso que vou desistir,
o vejo remando.
Então, sorrio e me concedo
mais tempo nesse percurso.

Torço para que o trajeto seja longo,
para que eu possa, quem sabe madura,
aprender a deslizar
entre o que tenho e o que não tenho.

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