Tributo

Tributo

Eu e o motorista de aplicativo presos no engarrafamento em silêncio. Até que um pedestre se enfiou perigosamente entre os carros à nossa frente, provocando um xingatório. A cena fez o motorista abrir, de uma só vez, o baú da dor:

– Meu pai morreu atropelado. Distraído. Sem ele, nossa vida desabou. Minha mãe passou muita dificuldade. Eu e meus irmãos também. E você acredita que, depois de muito tempo, já adulto, eu fiquei distraído também? Ando assim meio lerdo na rua…

Acredito. Como acredito!

– Talvez essa seja sua forma de tentar perdoá-lo, tornando-se como ele, respondi.

O homem se virou para trás para ver quem era a desconhecida que dava um palpite atravessado desses. Tentei não transformar o trajeto numa sessão de análise, mas é assim mesmo. O filho de um pai, que se deixa matar no trânsito, sente raiva. E sente culpa por ter raiva. E precisa de uma conciliação.

Assim como o filho de um alcoólatra, ao beber demais, pode estar dizendo para si mesmo: reconheço o prazer do meu pai, reconheço também a dificuldade com o limite, somos parecidos, então posso amá-lo. E posso, assim, esquecer a mágoa que a bebida causou. Um tipo de lealdade que nos leva a caminhos muito ruins.

A filha da mãe doente não consegue se permitir a diversão. A mãe do filho suicida não se dá o direito ao recomeço. A grávida, que perde o pai, não curte a alegria pela vida nova. Tributos às pessoas que amamos, que fazemos com nosso próprio sofrimento.

Posso ter uma ótima vida sexual, se minha mãe tem grande trauma nessa área? Posso conquistar bens e segurança, se meus pais não conseguiram controle financeiro? Tenho o direito à felicidade, se as pessoas mais importantes pra mim não a alcançaram?

Talvez seja impossível não estarmos divididos no meio de histórias dolorosas, que fazem qualquer conquista parecer uma ostentação. Mas, é preciso duvidar dessa lógica de condenação ancestral e deixar que as boas coisas compensem os tormentos.

Podemos ter mais. Isso alivia da dívida aqueles que não puderam oferecer tudo o que desejamos. Não é preciso aprofundar o pesar, repetir o erro ou também se oferecer ao risco de ser atropelado pela vida. Podemos ser melhores. Por isso, amigo, atravesse na faixa.

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