A escrita feminina

                        Valter Hugo Mãe não atravessou o Atlântico só para vir a um dos maiores eventos literários do Brasil colher os louros de autor homenageado na Fliaraxá 2019.

                        Ele nos trouxe uma notícia. Uma constatação que só as sensibilidades mais agudas puderam alcançar. Um fenômeno que só palavras como as dele, reconhecidas no mundo todo, podem anunciar: a revolucionária ascensão das escritoras mulheres.

                        Esse fato não importa apenas à literatura. Cada vez que uma dor, antes ignorada, pode ser acolhida, toda a humanidade desfruta o embalo de um colo. Cada vez que alguém se expressa inteiro, toda identidade humana se fortalece.

                        Valter Hugo afirmou com seu belíssimo sotaque português: "As mulheres não estão a carpir, a se lamentar e a cantar um fado. Não estão a suspirar. Elas estão a construir um tempo novo".

                        Fazem agora, por toda parte, versos e obras que não se ocupam em corresponder a uma imagem feminina organizada e higiênica. E ele confessa: prefere a escrita menstruada, impiedosa, que fala do sangue, revela o assombroso do corpo e a biologia desafiante.

                        Um movimento libertador. Tão relevante que ele considera mais necessário, nesse momento, o surgimento de um grande número de escritoras medianas, do que a revelação de grandes escritores homens.

                        Ele enxerga. A afirmaçao do feminino engrandece todos nós, de todos os gêneros.

                        Ele sente. Por isso, escolheu substituir seu sobrenome "Lemos" pela palavra "Mãe".

Obrigada por essa proclamação, Valter. É comovente que um homem leia em voz alta o que nós mulheres estamos escrevendo e inscrevendo na vida.

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