Velhice

Velhice

Quando você não puder se sustentar sobre as pernas, quero sustentar sua dignidade, ouvindo o que você tem a dizer.

Quando as carnes cansadas do rosto não forem mais capazes de manter suas lágrimas dentro dos olhos, quero lhe oferecer bons motivos para a comoção.

Você vai tatear um mundo de ameaças com o descontrole das mãos trêmulas, e eu vou tentar não fugir com medo do susto maior.

A memória vai sonegar lembranças. Você vai delirar.  E vou procurar lembrar que nossa lucidez nunca é realmente completa.

Quando seu corpo passar de abrigo a inimigo e não houver remédio possível, procurarei oferecer calor – de abraço, do sol, de mantas, meias, banhos e sopas.

Sei que seu esqueleto encurvado me despertará desejos opostos. Vou querer que o orgulho – que tanto custa e de pouco serve – não lhe impeça de se dobrar ao tempo. Porém, também vou rezar para que você não deserte do combate de sobreviver.

Seus protestos e sua raiva contra tudo o que não alcançará vão me distanciar. Mas torço para que seu tempo lento, seu tombo, seu engasgo possam frear minha impaciência.

Você vai perder o entusiasmo raro e vai se tornar uma decadência comum. Sem sumo como uma fruta passada. Procurarei lhe recolher com algum conforto familiar.

Vou tentar te proteger da solidão, que hoje engole mesmo os jovens em rotina de ausências. Para que, pelos menos no final, você não espere por quem não vem.

Quando você desaprender os caminhos e for incapaz de atender até à própria fome, quero estar bem ciente de que, um dia, também serei rugas cheirando a sabonete ou hálito cheirando a leite azedo.

Seus ouvidos me escutarão mal. Minhas mãos serão pesadas demais para as suas feridas. Nossos gestos vão se desentender.

A morte passará a tomar o café da tarde conosco e desejo que ela me sopre conselhos sobre amores inadiáveis.

Verei sua vida escapando, sentirei vazamentos na alma. Estaremos unidas pela fragilidade. Você vencida pelo corpo. Eu vencida pela impotência.

Virá o tempo das emergências. E, quem sabe, nessa desordem sem solução, a gente se esqueça das defesas e exaustas nos entreguemos à desistência. Desistência de tudo o que não pudemos ser uma para a outra.

Então, voltaremos ao início. E, antes que a vida feneça, aprenderemos a lição do fim: o encontro sobrevive.

Comentários
Fechar Menu