Zen

Zen

Pareceu que aquela era a primeira vez que se sentava em semanas. Claro que se sentava para comer, para trabalhar, mas não para nada.

Inspirou fundo e encheu o peito até estalar os ossos das costas. Tentou soltar o ar com a mesma vontade, porém, tinha muito mais experiência em puxar as coisas para si do que em deixá-las ir.

Fechou os olhos. Escutou um carro que parava na rua. Alguém pediu informação e alguém respondeu uma rota mal traçada. Corrigiu o caminho do outro mentalmente, depois tentou se corrigir. Lembrou-se de tudo do que não precisava tomar parte e foi capaz de ouvir o vento assanhado brincando com o sino pendurado na varanda.

Tanto barulho em si exigia que se concentrasse em pequenos ruídos externos para aquietar. Algo rangeu lá fora e pareceu o som preguiçoso do gancho de uma rede, para um lado e para o outro. Ou o gemido da madeira antiga de uma cadeira de balanço, para frente e para trás. Pensava em movimentos lentos. Mas sempre o movimento, sempre o pensar.

Recolheu de novo os tentáculos que sua mente atirava sobre tudo. Tentou notar o corpo imóvel. Muitos minutos ali, para segundos de presente. De presença.

Concentrou-se na região abdominal e recordou a entrevista do Pepe Mujica. O jornalista pergunta ao ex-presidente uruguaio o que tem mais poder, se o manifesto ou a poesia. O revolucionário, que esteve preso por 7 anos em uma solitária, responde que a poesia, com certeza: “Nós seres humanos nos consideramos muito racionais, mas, às vezes, as tripas decidem”. A lembrança era boa, mas era obra do cérebro mais uma vez. Para destituí-lo, pensou nas próprias entranhas, tentou visitar seu umbigo pelo lado de dentro do corpo.

Lá, não encontrava nenhuma identidade. Nem papel, nem profissão. Nem mesmo algo que dissesse seu sexo ou sua idade. Só um existir. Vivo e simples, porque constatava que o mundo caminhava à sua revelia. A vida seguia indiferente aos seus pequenos conflitos. Por um momento, sentia-se livre de desejar interferir. Sem resistência. Como a terra que pousa devagar no fundo de um copo d’água.

Mas, basta um ínfimo pensamento para balançar a mistura, que se turva de novo.

Dessa vez, foi o celular vibrando. Era hora. Levantou-se, guardou o colchão de meditar e tentou capturar algo daquela pacífica contradição para enfrentar o dia. Uma entrega ativa. Uma distância serena para sentir-se parte do todo.

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